quinta-feira, 21 de junho de 2018


Não creio mais em mim
Desde que me tive como guia
E me perdi daquele pequeno serafim
A felicidade disse adeus ao dia

Tive dó da minha pele
Lacerada por imundos cascos
Que de noite a cama repele
É contando estes novos rasgos

Que vou fazendo minha morada
Nas asas desse destino atroz
Sei que passo por pouca entrada
Nas entranhas de um cacto, uma aveloz

terça-feira, 3 de abril de 2018

Quero ver alguém que voe
O dia está claro
Parece que vai explodir
Vejo fagulhas de raios solares
Na face ardente
É um dia como nenhum outro
Posso finalmente sentir
Bramir léguas de um grito rouco
Quero escrever uma canção
Que não sei cantar
Minha mente se perdeu
Não está achando a saída
Ouço a música
Toco o mar
Sei que isto vai passar
A música diz:
Um dia isso vai passar
Vai passar, vai passar...

domingo, 21 de janeiro de 2018

Rasgos de róseo no céu

Céu imenso marcado por um róseo claro.
Esperava mais força do teu azul infinito.
Onde está tua aura lânguida vestida de branco?
Teu aroma de seda pura, onde está?
Responde o róseo de pronto:
Não tem mais espaço nessa imensidão!
Esta última hora me pertence.
Como agora é minha esta estrela cheia de raios.
Posso vê-la, tocá-la, sentir seu calor de placenta.
Viro sangue em seus braços.
Sou obra-prima de algum artista que vive por estas bandas.
Se me pintaram assim, sou dona do céu, sou o exato instante entre a luz e as trevas.
O róseo é mais nessa hora de beleza.
Não abandono meu astro-rei, porque sou aquarela.
Sou um misto de mim mesmo e da repetição dos dias.
Sou rasgo de róseo no azul do céu!

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

O velhinho do fusca azul


Caminhava, mais uma vez, para espantar os males da depressão e vi aquele velhinho dentro do seu fusca azul. Parecia incomodado. Estava dentro da velocidade que lhe cabia e ali esperava um pequeno transito. Usava um boné cinza e catava alguma coisa dentro do carro. Quando andou o transito ele teve um ar de riso.
O velhinho do fusca azul seguiu adiante enquanto eu virei-me para olhá-lo. Passei as demais voltas da caminhada pensando nas voltas que ele daria com o seu transporte. Ele dirigia. Eu caminhava. E quanta gente faz essas mesmas coisas dia e noite, noite e dia. Mas não é pra isso que escrevo.
Quero falar daquela vida que imaginei, sem muitos pormenores. Acredito que naquele dia ele poderia ter saído para comprar algum doce para o neto, algum ingrediente para o bolo que sua esposa faria. Chegaria em casa estacionaria o carro e partiria para entregar os agrados ao neto e à velha mulher. Depois sentaria em sua cadeira de balanço e começaria a pensar no quanto era feliz por ter abrigo e uma família grande que o amava. Diferente de tantos velhinhos que estão nos abrigos sem sombra de qualquer familiar.  
O velhinho do fusca azul, quando adolescente pode até ter sonhado com algum carrão, de uma dessas marcas que se multiplicam por aí. Mas hoje, hoje mesmo, ele era o dono de um fusca azul. Como teria vivido em sua infância sem saber do seu fusca? Entre seus brinquedos devia haver um daqueles carrinhos de madeira, hoje tão fora da moda dos meninos e meninas que só têm tempo pra seus androides dos modelos os mais infinitos possíveis.
Eu caminhava, pensava nele, e lembrava nostálgica da minha linha do tempo. Dos meus sonhos de menina, a adolescência reclusa, os desejos não realizados, desfeitos por algum ladrão nos bastidores. A vida que tenho hoje, tão limitada pela depressão, parece me pedir algo mais, uma descoberta que ainda não consegui, um sentido perdido querendo ser restaurado, uma esperança que se despetalou e deixou de ter aquela aparência de mandala.

Hoje talvez fosse um dia pra parar aquele carro azul, abordar o velhinho e dizer que iria acompanhá-lo até os limites daquele carro arquejante, caído, mas um bom transporte, que me levaria a algum lugar de repouso, de paz, uma vida movida à velocidade de um fusca.    

Empoderamento

Se eu não lutar contra isso não mais saberei o que é viver
Se tenho uma página em branco, do vazio que restou
Vou fazer dela a possibilidade de um novo mundo
Em que quem vai colorir sou eu, com minhas forças
Vou caminhar com minhas pernas de novo
Estou aqui completamente só mas estou viva
Estou sem forças, mas tenho ainda um sonho por dentro
Quero viver, quero amar, sofrer, chorar e sorrir
Ser alegre e ser triste na medida ideal, nem mais nem menos
Não posso ultrapassar estes extremos, pra não me perder de novo
Vou caminhar, vou emergir desse vale de lágrimas
Deste vale da sombra da morte e seguirei com minha vida
Vou ser feliz de novo, pq eu me determino a isso.
Sei que mereço, sei que o universo conspira ao meu favor.
Sei que Deus me sustenta, sei que a vida me quer viva.
Vou perseverar na vida, pois não quero a morte
Só quando Deus me quiser levar
Sei que o caminho é longo, não tem nada fácil aqui
Debaixo do céu tem muito enfado e dores
Não sei como um mundo se constrói assim
Sei apenas que estou neste mundo
E vou prosseguir nele, pois Deus quer assim
E ninguém pode com Deus, quando ele quer

Que assim seja. Amém!

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Deus

Deus, Deus, onde estás, onde estás?
Vejo um signo enganoso que outrora
Jazia sob meu colchão
Lágrimas profundas mergulham meus
Pés no chão da casa
Dizem que há sabedoria no aflito
Não creio em minha própria pele
Que de dia lacera e à noite não descansa
Deus, oh Deus
Falho em dizer-te estas palavras avariadas
Mas o tempo está nublado e em dias assim
Ouço uma voz que rasga meus tímpanos,
Dizendo coisas que devo fazer.
Não estou louca, bem sei, a voz do Senhor
Parece me ditar um tenebroso apocalipse
Socorrei-me, João, pois há revelações estranhas
Que preciso compartilhar
O mistério do mundo é ele ser mundo
Às avessas
A vida não cabe neste livreto, nem em qualquer
Ciência que queira explicá-la
O carrossel dos meus dias foi feito
De ouro puro, mas o derreteram
E selaram por dentro e por fora
A entrada do parque de diversões
Minha vista embaça quando olho para as pessoas
Sofro de diplopia no mais remoto aproximar
De gente
Fizeram-se erupções na pele quando me tocaram
Ralhei com eles e os espantei pra longe
Deus, Deus meu!
Diga-me se há nestas palavras mentira
Tenho sede de Verdade
Minha pele está seca
Da minha boca só sai lamento
Queria alcançar as palavras
Do teu querido Davi,
Mas não sei se ainda tenho crédito
No teu banco celestial
Sempre a contradição dando ordens
Coorporativas ao cão lazarento
E o enredo é sempre o mesmo
A voz que não cala dentro da mente
A vida que grudou no corpo

E foi a última a deixar o palco. 

O mar


Com asas brancas ele vai, ele vem
O vento a favor do nado solto das ondas
Ele leva e traz uma vida qualquer 
No rasgo de um dente de tubarão
Afiadíssimo, lâmina cortante, entra
Pelos poros e tempera o sangue com sal
Ao longe uma tartaruga centenária morre,
Os urubus vêm comê-la
Frente à imagem idílica do mar
A fome dá bicadas na morte
E o cenário é nada mais contrastante
Quanto a própria vida.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

A mulher e o mar

Pensei muitas vezes antes de começar esse texto. Em parte porque ando pouco inspirada, em parte porque minha mente anda bastante cansada pra pensar em qualquer coisa. Mas resolvi escrever porque o fato ficou encharcando minha consciência e lá vai alguma coisa de modo breve.
Estava eu no mar, fazendo um dos execícios que sempre faço pra aliviar os males da depressão. De repente olhei para o lado e vi uma mulher lentamente entrando no mar. Fechava os olhos, soltava os cabelos e tinha uma expressão de profunda paz. Confesso que senti uma certa inveja daquela mulher, parecia tão feliz, tão livre de qualquer tormento que pudesse incomodar seu banho. E eu lá com minhas agonias e perturbações cotidianas fiquei a olhá-la. A sua expressão jamais me abandonará. Quando eu morrer quero ter aquela expressão feliz, quando alguém olhará pra mim com olhos de saudade, com aquela reação vaga e insegura da solidão de quem fica.
Mas a mulher era feliz, passou ainda um tempo no mar, brincando com as algas e ondas; se era triste - talvez fosse- naquele dia não dava pra ver.
Não esqueço que fiquei a olhá-la com fixidez, com medo que me visse e perdesse a espontaneidade dos vivos.
Saí do mar com uma vontade de ser aquela mulher, de saber o que é ser feliz novamente, de saber de saúde, paz, descanso, sossego, qualidades que estão por aí nesse mundo, mas que pra mim são como as ondas que fui deixando pra trás naquele dia bonito.

quinta-feira, 30 de março de 2017

O rapaz que calculava

Jamais esqueci a expressão do rapaz que calculava em uma das mesas de uma biblioteca. Aquele olhar perdido, as mãos sob o queixo. Parecia longe.
De repente uma risada alta e o lápis fechando uma equação. Feliz da vida aquele moço que calculava.
Naquele momento nada mais importava, era como um poeta limando a música de seus versos.
Calculava e ia esquecendo do mundo, até de si mesmo. Eu sempre soube como é bom ter a consciência voltada a um projeto. Por enquanto não sei mais como se faz isso. Tem sido tudo tão aleatório. Mas o rapaz calculava, tinha nas mãos uma calculadora, a qual ele consultava inquieto quando alguma função matemática não queria se deixar descobrir.
Estava tão absorto que não percebia meu olhar de pintor. Queria descobri-lo, conversar, ver nas matrizes daqueles olhos o enigma principal dos seus cálculos.
Não teve jeito, de repente ele recolheu os papeis repletos de números e letras, seus livros - como uma biblioteca de títulos insondáveis, e foi embora, enquanto eu fiquei a calcular a engenharia dos seus passos.

Cães de rua

Esta tarde passei perto de um deles. Estava lá, quase sem fôlego, com a língua pra fora, pedindo uma bacia d'água a quem quer que fosse. Fora este, havia mais alguns que logo chegaram pra beber da água que uma senhora, carregando dois vira-latas pela corrente, resolveu colocar pra eles.
Chegaram perto de mim para farejar os pães que eu conduzia numa sacola. Logo os coloquei pra correr, como Rubião fazia com Quincas Borba quando este estava muito arredio.
Fiquei ainda a olhá-los, na sua liberdade de correr pelas ruas, como que procurando algo, com um vagar delirante de alguém que não tem consciência de si.
Saíram em bando, ora juntos, ora afastados, farejando os lixos, as saias das mulheres, numa rinha uns com os outros pelos melhores pedaços de lixo. Uma desordem só.
Outro dia vi um desses na minha rua, arquejava, me olhava com aquele sentimento de dor. Com aquele ar de desdém por tudo que não fosse diminuir aquele sofrimento. Eu quis até fazer algo por ele, mas minhas ocupações...
No dia seguinte estava só o corpo, a alma já havia achado algum trem de partida, pra onde não me pergunte.
Fiquei com uma dívida com aquele bichinho. Se o tivesse recolhido, mesmo os trapos, poderia ter livrado minha consciência do peso que hoje sinto. A culpa sempre nos faz fracos!