sábado, 20 de abril de 2019

Diário

Tantas palavras lançadas ao vento. Tanta angústia acumulada transformada em discurso pessimista. Quanta revolta convertida em setas inflamadas em direção à gente que, muitas vezes, nunca nem me viu um único dia sequer nessa vida. Têm sido assim os últimos três anos e meio dessa minha curta vida. A única coisa que tenho conseguido fazer, nos breves momentos em que interajo com as pessoas, tanto nas redes virtuais com nas trocas reais...

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Meio de banda

Tenho pesquisado muita coisa sobre transtorno bipolar nos últimos três anos. Muita coisa mesmo. Desde o diagnóstico, em 2015, a busca por compreender as repercussões desse transtorno em minha vida tornou-se quase obsessiva. Gostaria de jamais ter tomado conhecimento do óbvio, mas...
Há muita gente que idealiza essa doença, acreditando ser um mal diretamente relacionado à genialidade, à capacidade criativa de quem por ela é tocado. Contudo, a realidade é que esta patologia, assim como obviamente todas as outras que acometem a humanidade, tem sido um inesgotável terreno pantanoso em minha vida. Falo isso sem medo de me expor, pois talvez seja disso que eu preciso depois de anos de silêncio e assombro.
A bipolaridade é caracterizada pela alternância entre mania (euforia) e depressão. É, das doenças mentais, a que mais causa suicídio. Se não tratada, pode lesar o cérebro por comprometer áreas do córtex pré-frontal, bem como áreas ligadas ao bom desempenho da cognição, como o hipocampo, chegando por vezes a deflagrar quadros demenciais.
Ler e escrever sobre isso e, muito pior, viver isso é desesperador. Em meio à luta com o tab, conheci muita gente com o mesmo diagnóstico. O que eu posso perceber é que essa doença tem muito mais máscaras do que se possa imaginar. Em cada pessoa parece se apresentar de maneira muito peculiar. Dentre todos os meus amigos com esse diagnóstico, não há um sequer que apresente os mesmos sintomas que eu. Nem mesmo entre eles os sintomas se repetem. Todos parecem estar estáveis e reconciliados com a vida novamente. Eu não.
Tive um surto psicótico junto com uma crise aguda de mania em 2015. Depois fui arrastada por uma gravíssima depressão que me arrancou trabalho, estudos, independência, identidade, amigos, sonhos, vontade de viver. Só tive uma crise de mania, mas o suficiente para querer voltar a ela todos os dias. Cheguei ali ao ápice de minha capacidade mental; mesmo delirante, e talvez por isso, alcancei imagens incríveis sobre o Universo, sobre mim, sobre a vida, que nem se eu tentasse eu conseguiria pintá-las do mesmo modo. Meu pensamento saltava, minhas ideias gritavam fórmulas, filmes, saberes e livros inteiros por escrever. Fui tomada por um prazer e uma vontade de viver jamais antes experimentados. Ah... daria tudo pra ficar funcionando sempre naquela frequência de outros mundos. Mal sabia eu que haveria um preço altíssimo a ser pago por ter provado daquela árvore terrível. De lá pra cá venho falando sobre isso com meus terapeutas, mas o que consigo é uma leitura superficial e insuficiente de uma experiência direta com a loucura. Além disso, a depressão, a apatia e o lítio foram se encarregando de desbotar aquelas memórias vibrantes e esvaziar a experiência mais incrível, efusiva e assustadora que eu já tive nessa curta vida.
O diagnóstico veio em 2015, mas desde a adolescência eu convivo com quadros severos de depressão. É comum que o diagnóstico desse transtorno só chegue em torno de dez anos depois do primeiro episódio, que em geral é de depressão ou hipomania (um quadro mais brando de mania e que muitas vezes passa despercebido por olhos menos acurados). Uma das psiquiatras que me atenderam falou que, em meio aos episódios depressivos, vivi em hipomania durante boa parte da vida. Isso explica alguns comportamentos excêntricos que os que conviveram comigo bem sabem. Depois do quadro de mania, como disse manifesto em 2015, entrei em grave depressão em meio a qual escrevo esse relato.
Essas são breves linhas de mais uma história de vida com o transtorno bipolar e com todo potencial destrutivo que essa doença carrega consigo. Mesmo que a mídia associe essa patologia ao brilhantismo de diversas personalidades das artes, das ciências, da filosofia, da política, essa é uma grave doença mental que muitas vezes tem provocado a morte de muitas dessas mesmas mentalidades. 
Só sabe quem passa!, famoso dito entre nós, mortais que convivem com uma doença brutal, invisível, para a qual, segundo os médicos, não há cura, apenas controle e, muitas vezes, nem isso!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Tenho dó das estrelas (Fernando Pessoa)

Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo...
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço
Das coisas.
De todas as coisas,
Como das pernas ou de um braço?
Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir...
Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não a morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão —
Qualquer coisa assim
Como um perdão?

sábado, 26 de janeiro de 2019

Viver é passo

Viver é experimento
feito terra molhada
na mão de criança
feito letra que atrai
palavras e parágrafos…
Viver é música
feito tempo e compasso
uma geometria de instantes
na mão de quem crê
na mão de quem cria

Amour

Dia desses um amigo me perguntou se eu ainda acreditava no amor. Imagino que ele tinha em vista todas as suas tentativas e experiências frustradas, principalmente no mundo frio e vazio de afetos no qual aportamos no último século dessa modernidade desvairada.
Sim, amigo, acredito sim, mas não acredito nesse amor que quer aprisionar corpos, emoções, pulsões. Acredito no amor que se expande, que cuida do outro, como um cuidado de si, que sente junto, que se desloca num movimento de ida ao mundo e volta ao centro do ser. Um amor que não mais se perde em desilusões, em expectativas inúteis, um amor que sente profundamente, que vibra com todas as formas manifestas e com o éter imanifesto, que se desfaz, liberta o ser na imensidão, que se dilui no todo e é esse todo também. Por isso mesmo, consegue se aproximar do significado do verbo amar que, ao contrário do que diz o poeta, é verbo transitivo, posto que não se fixa, está em constante passagem, errante, correto, verdade que explica a vida, viagem que se desloca entre objetos e sujeitos com a velocidade e a força da luz e que retorna ao repouso como o canto de um bem-te-vi na leveza da manhã.

Enlaço

O amor é patrimônio intangível.
Talvez o nosso maior monumento!
É éter, solfejo, delírio
De todas as eras, em todos os espaços
Ergue-se sobre escombros
Desenha livremente os laços…

Carta pra quem ainda não sei

A mão que apedreja pode afagar também, apagar as dores, limpar as lágrimas, sair por aí tateando o mundo.
No fim, ou no meio, quando todo o chilique existencial se acalma, a vida começa a aparecer entre as cortinas da ribalta. Ela não mais acena de longe. Agora ela tem uma ordem, racional e encantada porém, tem um lugar que precisa ocupar nessa arena real que é de tempo e é de espaço.
Todos os símbolos te foram explicados e devidamente meditados ou então enfiados goela abaixo mesmo. Poderás ver que pedra e vidraça eram as faces ocultas daquela mesma voz rouca que gritava e não sabia o porquê!
Agora há um buraco negro na boca do teu estômago, que te come por inteiro, mas em breve ele será mais um círculo da criação que te espera.
O inconsciente adora linhas tortas, não tem jeito, escreve feito um rei bêbado que não tem muita opção dentro do labirinto. Mas o consciente é sempre mais interessante, porque sabe se organizar, tem uma chave que abre pelo menos algumas portas principais, é uma base eficaz, mais útil que teus devaneios inúteis!
Teu ego não cabe em ti, nem nos onze mil à tua volta. Por isso, quando te miram, logo te acertam. Porque há uma legião que não consegues controlar, que te ronda como fantasmas que se perderam, como espectros que não sabem fazer uma revolução, porque as armas estão ainda fora do alcance.
A vida não é prêmio, nem um doce que se come depois do almoço. Tem cacos, tropeços, cascão de ferida que, de repente, cicatriza.
Tu bem sabes disso. Tu bem sabes, mas achas que teu orgulho é um bom antídoto para teus fracassos. Tuas mentiras se perdem na hora em que são professadas. Não fazem sentido, não elevam a consciência em qualquer direção construtiva. Tua pulsão é morte, destruição, sopro que retira a vida. Tua pulsão é também fôlego pra andar todos os passos, é criação, é descer e subir os degraus, leves e inconstantes, como a gangorra em que brincavas na infância que não sabia muito bem de si.
Há um querer em potência em ti. Há uma vontade de ser, de estar no mundo, de fazer o que não sabes ainda. Tua rebeldia é só mais um incremento pro salto que ainda não deste, mas que darás, lindamente darás esse salto!

Vida artificial

Quando a gente se acostuma ao silêncio, andar em shopping é como ouvir uma péssima banda de rock no último volume.
Sem falar naquela artificialidade latente. Nas luzes fluorescentes que ofuscam a visão. Os sons misturados em cada loja que se entra disputam qual grito chama mais a atenção dos clientes. As pessoas indo de um lado pro outro segurando as crianças que querem correr pra comer o último combo do McDonald’s, ou choram dizendo ter que comprar alguma coisa. Uns sentam nos bancos e ficam olhando pros outros, como num zoológico. A maioria, depois de trocentas horas com a senha do prato na mão, acha na praça da alimentação algumas colheradas de prazer provisório. Depois atravessam as cancelas do estacionamento pra explorar outras cavernas ou pra anestesia de outras atrações dominicais. Nossa! Que mundo é esse que construímos?

Dona Luísa

Olhei para o 101 e a vi deitada no sofá como que esperando o que faltava chegar.
– Tudo bem, Dona Luísa?
Já estou subindo o primeiro degrau, quando escuto:
– Tudo bem, minha filha, enquanto eu tô dormindo, tá tudo bem.
Tirava o cochilo da tarde. Quando não está dormindo, Dona Luísa tenta interrogar o passado dos vizinhos apressados. Vai catando os cacos das vidas dos outros. Nas idas e vindas de um dia a dia mecânico, ninguém parece ter muito tempo para o que passou. É talvez nos sonhos que Dona Luísa pode juntar os pedaços dos outros e costurar histórias de dormir.

I(media)to

Como será tua voz
aquém do silêncio?
Tuas mãos antes da distância?
Teus olhos um pouco pra cá do engano?
Teu cheiro após a espera?
Tua língua sem as palavras?
Teu corpo depois do gozo?
Quando adiar a data do que não foi?
Dar as pernas para o salto?
Olhar para as botas do desejo,
dos suspiros, da orgia?
– Ele perguntava essas coisas
pra manter a euforia da cruzada.
Seria mais um comboio de sensações
que andaria pela casa
e acharia os pés descobertos
às duas da manhã.
Iria cobri-los como quem
dá um troco pra não sair devendo nada.
Depois do batente, cruzaria a rua,
sentaria na calçada próxima,
como se fosse entender um pouco
mais de qualquer coisa.
Resolveria que seria inútil pensar.
Levaria as mãos ao bolso,
acenderia o último cigarro da carteira,
procuraria no celular contatos online.
De novo estaria saturado daquilo tudo.
Daria o último trago.
Decidiria voltar pra dormir com a ‘amiga’
que adicionou há uma semana no WhatsApp.
Antes de chegar ao portão,
bateria aquele protesto agudo:
Pra que voltar ao passado?